quinta-feira, 8 de setembro de 2011

"E Fukushima?" pergunta Fada do Bosque.
"E Fukushima?" pergunto eu.

Então vamos procurar algumas notícias para ver qual a situação.
O Prémio Príncipe Astúrias da Concórdia 2011 foi atribuído, esta quarta-feira, aos "heróis de Fukushima", o grupo de homens e mulheres envolvidos na emergência nuclear provocada pelo tsunami no norte do Japão, de 11 de Março.
O júri da Fundação Príncipe das Astúrias, da cidade espanhola de Oviedo (Astúrias), realçou o "valoroso e exemplar comportamento" das equipas que evitaram, com sacrifício próprio, a multiplicação dos efeitos do desastre nuclear provocado pelo tsunami.
Bonito. Mais?

O novo primeiro-ministro do Japão, Yoshihiko Noda, visitou pela primeira vez a central nuclear de Fukushima, danificada pelo tsunami de 11 de Março, e expressou a sua gratidão pelo esforço dos seus funcionários.
Noda, que assumiu funções na semana passada, reuniu-se com militares e com funcionários da central. “Muitas pessoas neste país estão gratas pelo vosso esforço em controlar a central nuclear. Estou orgulhoso do vosso trabalho e quero expressar-vos a minha mais profunda gratidão”, segundo a estação de televisão NHK.
Isso também é bonito. Mais?
A temperatura do recipiente do reator 3 da usina nuclear de Fukushima caiu para menos de 100 graus centígrados, como resultado das operações de refrigeração, informou nesta segunda-feira a operadora do reator, a Tokyo Electric Power Company (Tepco).
O anúncio, divulgado pela agência Kyodo, eleva para dois a quantidade de reatores cuja temperatura caiu, até o momento, para menos de 100ºC, depois de a Tepco ter informado em 21 de agosto que a temperatura do reator 1 estava abaixo desse nível.
A Tepco também informou nesta segunda-feira que o reator 1 da usina diminuiu ainda mais a temperatura e atualmente está abaixo dos 90 graus, refletindo o sucesso das operações de refrigeração, segundo a Kyodo.
A companhia instalou em meados de agosto um sistema adicional de reciclagem e injeção de água, de fabricação japonesa, compatível com o que está em funcionamento desde junho, que deu bons resultados nos reatores 1 e 3.
Os operários pretendem aplicar o mesmo mecanismo em breve na unidade 2, a última que ainda está acima dessa temperatura.
Então problemas resolvidos? Parece.

A licção dos terramotos

Mas nem todos partilham a mesma opinião.
Tomi Mori, por exemplo, jornalista japonês:
Quase seis meses depois do pacote de tragédias que assolou o Japão no dia 11 de Março, o que vemos é a ampliação dos problemas aflorados naquele dia.
E a situação, longe de ter sido normalizada, ainda constitui uma séria ameaça não só aos japoneses, mas aos países vizinhos e também à população mundial.
Exagero? A tragédia começou com um terramoto, seguido de tsunami, ampliado com a crise nuclear e o maior festival de mentiras da história recente. O que vimos e vemos é uma mistura de impotência, ignorância, multiplicada pela ganância capitalista, no que se transformou no mais profundo acidente desde a barbárie do pós-guerra.
Tendo ocorrido num dos principais países imperialistas e numa das sociedades mais desenvolvidas do ponto de vista tecnológico, que lições podemos tirar desses acontecimentos?
Não há como esgotar estas discussões no âmbito de um pequeno artigo, mesmo porque, com o passar dos dias, o impacto cientifico, social e económico está longe de ter terminado. [...]
O perigo continua
Hoje, pela madrugada, fui sacudido por um terramoto. Foi leve, magnitude 4.7, no epicentro, na província de Saitama, vizinha a Tóquio. Afirmar que um terramoto magnitude 4.7 é leve, demonstra, inequivocamente, a gravidade da situação actual.
Desde o 11 de Março, perdi a conta dos terramotos de magnitude superior a 6.0, recentemente tivemos um de 6.8. O que isso significa? Significa que o Japão actual vive uma poderosa actividade sísmica. Os especialistas, imediatamente após o grande terramoto, afirmaram que um aftershock de magnitude 8.0 poderia ocorrer nos dias subsequentes; felizmente, até o momento, não ocorreu. Mas não quer dizer, que após seis meses, não possam ocorrer.
A actual actividade sísmica, que é concreta, tem gerado, ainda, poderosos terramotos. Digamos que, por sorte, esses terramotos ocorreram em locais onde não causaram nenhuma nova tragédia, mas não está descartada a hipótese de os terramotos, que são diários na província de Fukushima, poderem um dia destes, atingir em cheio a central nuclear.
O que pode ocorrer caso isso aconteça? Bem, deixo à imaginação dos leitores... Seria um grotesco exagero da minha parte, se esse argumento não fosse baseado na minha diária averiguação dos terramotos japoneses. Ocorrem diariamente, como média, de 10 a 20 terramotos cuja magnitude varia de 2.0 e 7.0. Que país, em todo o planeta, vive uma situação semelhante? Mas não é um país qualquer, trata-se da segunda potência imperialista e da terceira economia mundial.
Entre as tragédias naturais, como os furacões, tormentas, inundações, soterramentos, secas e irrupções vulcânicas, o terramoto ocupa um lugar especial. Enquanto as outras calamidades são facilmente previsíveis e antecipadas, o mesmo não ocorre com os terramotos.
Porquê? Atrevo-me a dizer que os terramotos causam pânico. Que, para evitar a tragédia de um terramoto, é necessária a evacuação da população.
A evacuação consome recursos, dinheiro, interrompe a actividade económica. A maioria delas, se fossem realizadas preventivamente, seriam inúteis. E, para os capitalistas, um desperdício de tempo e de dinheiro.
Mesmo que um sismólogo possuísse os dados irrefutáveis de que uma calamidade está próxima, nenhum meio de comunicação se atreveria a divulgar uma notícia dessas para não criar um pânico incontrolável e, ainda por cima, correr o risco de sofrer processos judiciais de todo tipo por promover um alarme falso caso não ocorra.
Nesse caso, as autoridades competentes, que representam os interesses do capital, deixam a população à sua própria sorte, mesmo que isso custe milhares de mortes e, na ocorrência de uma grande tragédia, imediatamente têm quem colocar no banco dos réus e lançar todo tipo de acusações. A natureza, essa mesma que nos propicia todos os recursos materiais para o nosso bem-estar social, é convocada ao banco dos réus e recebe todo o tipo de acusações pela ocorrência da tragédia.
Simples, não? Alguém já ouviu a frase “Não podemos fazer nada contra a força da natureza!” proferida por políticos impotentes?
Na semana passada, o Yomiuri, o maior jornal japonês, publicou um interessante artigo que, entre outras coisas, dizia que o grande terramoto de Março havia provocado uma grande modificação e que os estudos anteriores deveriam ser re-analisados.
O artigo argumentava que o grande terramoto de Kanto (onde se localiza Tóquio), que ocorre regularmente no intervalo de 100 anos, poderia ter o seu prazo encurtado devido ao terramoto de Março. Ou seja, a possibilidade de que um grande terramoto atinja Tóquio, no próximo período, ficou maior.
Mas de que adianta saber isso, que cem em cada cem japoneses sabem, se ninguém faz nada? Por que viver em Tóquio e esperar que a sua casa caia sobre a cabeça? Por que esperar que após um terramoto de magnitude 7.0, ou maior, um tsunami adentre a baía de Tóquio e o arraste e a toda a sua família?
O artigo prossegue com mais alguns anatemos contra a sociedade capitalista e o Deus dos Terramotos. Que deve ser um capitalista também.

Mas nada acerca das consequências que podem afectar todos.
A radio-actividade libertada no ar? Desaparecida. Talvez fosse bio-degradável.

Nada de pânico

Doutro lado, porque preocupar-se?
As previsões alarmistas de que os efeitos a longo prazo, sobre a saúde, do acidente nuclear de Fukushima seriam piores daqueles que seguiram Chernobyl, em 1986, são susceptíveis de agravar os efeitos psicológicos nocivos do incidente. 
Afirma Gerry Thomas do Imperial College London, numa reunião em Varsóvia, Polónia:
Temos de acabar com estes tipos de relatos que nos chegam, porque realmente perturbam a população japonesa [...]
O media têm muita responsabilidade aqui, porque pior dos efeitos pós-Chernobyl foram as consequências psicológicas e isso não deve acontecer novamente.
Os Japoneses fizeram a coisa certa, proporcionando iodo estável para assegurar que as doses radioactivas nas crianças fossem mínimas
Mínimas? Tão mínimas que 26.300 estudantes de Fukushima receberam nesta Terça-feira dosímetros para evitar exposições excessivas. Não parece uma situação normal. E nem tranquilizadora.

E o facto da Agência Nuclear Japonesa afirmar que a libertação de radioactividade em Fukushima foi cerca 10 por cento a de Chernobyl não ajuda: não simples acreditar nas palavras da mesma agência que tinha aceite como válidos os standard de segurança oferecidos pela Tepco, a empresa privada que gere (e geria) a central nuclear de Fukushima.
Césio em Vancouver?

Uma organização de pesquisa atmosférica francês criou um "mapa de simulação", sugerindo que a costa oeste da América do Norte tem níveis de césio-137 maiores do que no Japão ocidental.

Clicar para ampliar
A apresentação do Centro de Pesquisa e Ensino no Ambiente Atmosférico deixa a clara sensação de que o césio-137 libertado em Fukushima alcançou a área metropolitana de Vancouver, Canada. Junto com o césio-134, o iodo-131 e o estrôncio-90, o césio-137 é um dos isótopos lançados na atmosfera pelo acidente nuclear, e todos são considerados uma ameaça para a saúde humana.

De acordo com CEREA, a simulação foi realizada com uma versão específica da química atmosférica e modelo de transporte Polyphemus/Polair3D.

Segundo os responsáveis do Centro:
A magnitude do campo de deposição é incerto e os valores simulados de radionuclídeos depositados poderiam ser significativamente diferente da deposição real [...] Portanto, estes resultados devem ser vistos como preliminares e susceptíveis de ser revistos a medida que novas informações estiverem disponíveis.

Vozes. Não a forma melhor para tranquilizar a opinião pública.
Podemos juntar também algumas outras notícias para dar a ideia da falta de informação e até confusão neste fase post-acidente.
10.000 millisieverts

Se, como vimos, a quem diga que os relatos são exagerados e teme os efeitos psicológicos, outros especialistas não partilham esta opinião. 
Quantos materiais radioativos foram liberados a partir da central? O governo e a Tepco ainda não comunicaram o valor total da radioactividade libertada.
Quem faz estas afirmações não é um conspiracionista, mas o Dr. Tatsuhiko Kodama, professor do Centro de Pesquisa de Ciência Avançada e Tecnologia, director da Universidade de Radioisótopos de Tóquio, num discurso do passa do dia 27 de Julho no Comitê de Saúde, Trabalho e Bem-Estar perante os deputados japoneses.

Segundo o Dr. Kodama, a quantidade total de radiação libertada durante os últimos cinco meses é o equivalente a mais de 29 bombas atómicas de Hiroshima e a quantidade de urânio liberado é equivalente a 20 bombas de Hiroshima.

Lembramos que ainda em Agosto foram detectados 10.000 millisieverts (10 sieverts) de radioactividade por hora nos destroços da central, uma dose fatal para os seres humanos, suficiente para matar uma pessoa dentro de 1-2 semanas após o exposição.

10.000 millisieverts (mSv) é o equivalente a aproximadamente 100.000 radiografias ao tórax.
Começamos a ver que os casos de hemorragia nasal aumentam, tal como os casos de diarreia aguda teimoso, e os sintomas tipo-gripe nas crianças
acrescentou o Dr. Yuko Yanagisawa, um médico do Hospital de Funabashi Futawa, na Prefeitura de Chiba . Ele atribui os sintomas à exposição radioactiva e afirma:
Estamos a enfrentar novas situações que não podemos explicar com o conjunto de conhecimentos que temos utilizado até agora.
Conclui Yanagisawa:
A situação na instalação nuclear em Fukushima Daiichi ainda não foi totalmente estabilizada, e ainda não podemos ver um fim à vista.
Como o material nuclear ainda não foi encapsulado, a radiação continua a fluir para o meio ambiente.
Flui, mas em silêncio, de forma discreta. Porque, já sabemos: "pior dos efeitos pós-Chernobyl foram as consequências psicológicas e isso não deve acontecer novamente". 


Ipse dixit

Fontes: Jornal de Notícias, Público, Notícias Terra, Esquerda.Net, NewScientis, Daily Iomiuri, Straight, AlJazeera

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